Imagem de barro

Abaixo segue um exercício, um conto com eulírico feminino. Não foi tão dificil quanto imaginava, mas também não ficou lá muito bom.

Estou explicando de antemão para que não haja estranheza quando começarem a ler. No mais, aguardo comentários. Tentarei ser mais interativo nos comentários, promover uma conversaçã lá ou algo que o valha.

No mais, obrigado.



Imagem de Barro

Nossas temperaturas estão a um bom tempo equilibradas e altas, o calor incomoda ainda mais quando se divide cama da solteiro. Estou de costas e me chego ainda mais em seu corpo, quero mais calor. E, para sentir a respiração leve do seu metabolismo desacelerado, enrolo meus cabelos e coloco-os de lado, pousando a cabeça encima. Então, vou afastando-a até sentir que o seu nariz afogou-se em cabelos e que meu perfume impregne o escritório, a academia, o avião ou qualquer lugar onde esteja; que acorde e diga que sonhou comigo.

Não sei bem se o amo, se esse querer-bem é o objeto cantado tantas vezes. Mas me protege e me dá orgasmos (no plural, mesmo). Talvez me sinta acomodada, numa “zona de conforto”, como diriam os profissionais de recursos humanos. Só não sinto nosso relacionamento seguro, acho que relacionamentos não são seguros, não são isentos das incertezas quanto ao futuro. Parei de sair com outros caras, mas não por respeito a sua virilidade, mas a minha feminilidade. Tento ficar quietinha, respirar o mais suave possível para não ser descoberta em vigília.

Pena não conseguir dormir em camas estranhas à minha. Nunca me acostumei a outras e não descubro o porquê. Não me esforço muito, também. Talvez Deus tenha me feito assim, intuitivo que é; talvez tenha em meu subconsciente algum bloqueio que me impeça de suspender o alerta e a atividade sensorial em habitat excêntricos. Me disseram que pode ser pela mudança de ambiente. Nunca fui boa investigadora, desisto das respostas após poucas tentativas frustradas ou incertas.

Desisto e levanto. Calço uns chinelos que ficam grandes e vou arrastando-os até a escrivaninha, onde acredito estar a minha calcinha. Visto-a. Apanho uma lapiseira e uma folha A4 na impressora, escolho um livro de capa dura na prateleira e vou sentar-me na varanda. Todos dormem, ou fingem, tanto faz. Não há o que escrever. O livro é de Administração de Marketing.

Não sei também se ele me ama, nunca ouvi nada parecido, nem na cama. Mas isso pouco importa de tão importante que é. Melhor não pensar. Nem nos conhecemos. O pior não é nunca ter escutado palavras como paixão ou amor, o pior é não fazer parte dos planos. A questão não é nem não fazer parte dos planos - também não quero me casar -acho que é não compartilhar os planos. Não vou me fazer de culpada (não posso, em consideração a mim mesma), mas gostaria de saber dos seus anseios, suas aspirações. Medos, já seria demasiado: homens são herméticos e nem eles os conhecem; talvez esse seja um subterfúgio para construírem.

Vem a inspiração. Checo se o grafite está OK. “Há um cofre e não há o segredo./ O cofre está fechado./Talvez os séculos com suas armas corrosivas o abra/ talvez.”. Está frio e logo estará na hora de acordar.

Tivesse agora, fumaria meu primeiro cigarro. Ninguém sorri enquanto fuma, me disseram. Não quero sorrir. Acho que só deveríamos sorrir ante a morte, pois ai é certo que não haverá mais futuro para se chegar. É um erro sorrir enquanto se luta. Não tenho nada, porque o que conquisto jogo fora para ir atrás de mais, senão morro. E o cigarro me parece uma parada técnica. Meu pai fumava e, quando discutia com a minha mãe, sempre pausava para um cigarro na varanda. Quando voltava, estava mais sereno e a mulher logo acalmava, também. Na verdade, queria pensar assim e fumar, mas acho as duas coisas muito másculas. Queria ser uma mulher dedicada e fiel, mas também não ser essa. Tentarei fumar, mas só em festas.

Já estamos enjoando um do outro, acho. O nosso elo mais forte é na cama, talvez o único. Antes nos víamos quase todos os dias, nem que fosse para dar uns beijinhos, apenas, no cinema ou em mesas de fundo no bar. Agora fodemos no fim de semana e ele nem me liga todos os dias. Está decaindo ao sexo casual, ou banal, como dizem. Necessidades fisiológicas de ambos supridas, cada um em sua solidão. Acho que já posso começar a procurar outro ou fazê-lo acreditar nisso.

“Gostaria que, ao tocá-lo/ ele se abrisse/ (como se a senha estivesse em algum buraco de mim)/ só para desmistificá-lo/ ver que não há nada insólito/ que induz a idolatria./Igual/ mas não reciclável.”.

Há tempos não via o dia germinar; o negro está ficando azul-marinho. Está, também, cada vem mais frio. Entro, fecho a porta e me sento próxima à varanda com a persiana aberta, numa poltrona de antiquário. Não temos mais muito assunto. Filmes, só vemos os recreativos de Hollywood que não dão muito o que comentar. Música, temos gostos totalmente opostos e nenhum de nós é eclético e tampouco queremos dar o braço a torcer na questão. Conversas banais sobre cotidiano e vida alheia logo me deixam enfadada. Queria que ele me explicasse suas empresas, motores de automóveis, futebol, que seja. Queria que me aplicasse testes.

Agora está azul-turquesa e os pássaros começam a lavrar o café da manhã. Qual será a diferença entre ave e pássaro? Logo acordará. Deixa a persiana aberta para que a luz do dia seja seu despertador natural. Criativo.

“//O que preciso é que esteja ao meu alcance/ como um brilhante/ para ditar a hora de usá-lo/ e de negá-lo.”

Já está ficando azul-azul. As nuvens, de invisíveis, foram pintadas dum laranja que fosforesce e já estão descorando. Acho que vou me deitar. Destaco a parte escrita da folha, amasso a não escrita e tento fazer uma “cesta” na lata de lixo, mas erro. Levanto e vou arrastando o chinelo em direção à cama. No caminho, coloco o poema na bolsa e, displicentemente, o livro e a lapiseira na escrivaninha. Admiro, ainda em pé, suas pálpebras trêmulas: certamente, no sonho, ele me perdeu.

Sento-me na cama devagar e deito tentando imitar uma pluma. Ele dorme de lado e um pouco encolhido, tento encaixar meu corpo ao seu. Conchinha. Novamente enrolo meu cabelo e faço dele travesseiro. Deixo a região da clavícula e cervical nuas, sei que ao acordar ele irá atacá-la como um anti-vampiro que dá vida ao despertar sensações diversas nas vítimas.

Dissolveram a aquarela azul, e agora está aguado e límpido. Os pássaros já quietaram e as nuvens estão brancas. Acho que as coisas voltaram ao normal após a turbulência que o rompimento de madrugada causa, inclusive eu.

Roço minha bunda em seu púbis em intervalos desritmados, se ele acordar um pouco mais cedo e se deparar com meu corpo livre, quererá. Não há porque terminar esse relacionamento, afinal de contas temos o que precisamos um do outro. Não sei se me portaria bem como cúmplice, talvez não seja esse o porquê de sermos. Estamos mais para um ser válvula de escape do outro, mas não no sentido portuário: tange ao circense, algo sem itinerário ou contratos. A tradução literal de boyfriend e girlfriend talvez seja a que melhor nos defina.

Ele está acordando e já pula em minha nuca com os lábios. Melhor parar agora de registrar minhas ações, os verbos serão conjugados todos em voz passiva e não quero voltar à condição de Costela. Acho. Toma minha barriga com o braço e traz para si. Ataca meu pescoço e vou esquivando-me para frente ante suas investidas. Mas. nesse movimento, nossas partes inferiores se friccionam e ele já se faz sentir.

Me ocorreu o título: ídolo de barro. Espero que faça-me esquecê-lo.


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Ídolo de Barro

Há um cofre e não há o segredo.
O cofre está fechado.
Talvez os séculos, com suas armas corrosivas, o abra,
talvez.
Gostaria que, ao tocá-lo
ele  abrisse
(como se a senha estivesse em algum buraco de mim)
só para desmistificá-lo
ver que não há nada insólito
que induz a idolatria.
Igual
mas não reciclável.

O que preciso é que esteja ao meu alcance,
como um Brilhante,
para ditar a hora de usá-lo
e de negá-lo.

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12 comentários

  1. Obrigada pelo coment no meu blog! xD
    E desculpa por ele estar tão feinho a hr ki vc viu.. hehe estava em menutenção, então tinha apagado tudo.. deixado limpo!
    Mas agora já está td certo!!

    Adorei seu texto!
    Me identifiquei mto com essa parte:"Já estamos enjoando um do outro, acho. O nosso elo mais forte é na cama, talvez o único. Antes nos víamos quase todos os dias, nem que fosse para dar uns beijinhos apenas, no cinema ou em mesas de fundo no bar. Agora fodemos no fim de semana e ele nem me liga todos os dias. Está decaindo ao sexo casual, ou banal, como dizem. Necessidades fisiológicas de ambos supridas, cada um em sua solidão."

    Meu namoro ha uns tempos atras estava assim... me sentí como se eu mesma estivesse escrevendo!
    Simplesmente A-D-O-R-E-I

    vou te seguir

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  2. "A hora de usá-lo e de negá-lo"- Para mim, uma tarefa difícil é saber discernir esta "hora", o momento certo de "colocá-lo" em ação!
    Pelo sim ou pelo não, todos nós temos a tendência de apelar pra um dos lados- emoção versus racionalidade...Gostei muito do seu estilo de escrever! Perdoe se minha interpretação não condiz com o que você quis expressar, mas foi o que entendi, acho que por haver me identificado com este tipo de interpretação...
    Passarei por aqui mais vezes, com certeza!!


    Tudo de bom!^^

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  3. Mas tu não achas que é o sexo a melhor coisa pra um homem mesmo do que as chatices do romantismo?

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  4. Gisele:
    Que bom que se identificou, ou que ruim, no caso! rsrs
    Quanto ao seu blog, esquenta não que não reparo. rsrs Mas li postagens mais antigas e gostei também.
    Valeu pela força!

    Mari:
    Os escritores de ofício dizem que, depois de escrito, o texto pertence aos leitores. Escrevendo, pensei em algo mais genérico como o 'deter o controle da situação', tomar as rédias da relação. Você leu mais profundamente, acho, parabéns!

    Obrigado pelo elogio quanto ao estilo.

    Sílvio:
    Cara, é a melhor parte, com certeza! Mas também não é a única boa. Particularmente, não concordo com todas as opiniões contidas nos contos, procuro passar opiniões condizentes com as personagens. Desse conto, estou com a menina quanto ao 'girlfriend', perfeito seria uma amiga que dá ri quando a gente peida, e peida também se sentir vontade, e faça bem na cama. O amor romântico (platônico) é coisa do século retrasado, ou seja, atraso de vida.
    Vou ler com calma seu blog agora!
    Flw!

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  5. Rs comentário hilário o seu lá.

    É rapeize, romantismo é coisa do passado a moda agora é namorar pelado.

    Abração amigo

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  6. Nossa Ciri, vc realmente ercarnou a alma de uma mulher.
    Perfeito. Muitas vezes me identifiquei com as coisas escritas ai, principalmente a parte de: "Na verdade queria pensar assim e fumar, mas acho as duas coisas muito másculas. Queria ser uma mulher dedicada e fiel, mas também não ser essa".
    Não sei por que, mas no momento eu queria ser uma mulher dedicada e fiel. Não que eu queira, mas queria. Acho que no fundo, por mais independente, moderna ou sei lá o que, a mulher sente essa necessidade de voltar a ser "costela".
    Enfim, esses pensamentos me deixam meio derrubada. Sigo em frente com pensamentos másculos a fim de esquecer esses percalços da vida. Mas sem os cigarros.
    Bjo!

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  7. Obrigada pelo comentário, e respondendo-o, realmente a solidão é necessária somente em alguns momentos, calor humano, na minha opinião, na maioria deles! A solidão é o refúgio que encontramos qdo não encontramos compreensão e/ou sentido no convívio...é preciso mesmo saber lidar com ela, para não tornar-se prisioneiro dela...

    E quanto a interpretação do seu texto, é sempre subjetiva mesmo, cada um se identifica de acordo com seu "eu", e o meu anda sensível demais ultimamente, srsrsrs!

    Abração!!^^

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  8. Tive que ler 2x. Pra entender melhor, a primeiro momento entendi o autor contando a história e dps a personagem, e a parte q me impressionei msm, foi quando vc escreveu: Pena não conseguir dormir em camas estranhas à minha. Nunca me acostumei a outras e não descubro o por que. Eu sou assim, emelhor dizendo em algumas outras frases, estava eu ali conversando com o nada e tentando me entender. Gostei do seu texto. Posso linka-lo? Beijos e sucesso!

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  9. Lili.

    “vc realmente encarnou a alma de uma mulher.” Um terreno perigo, esse... rsrsrs, difícil não contaminar o texto com machismos, feminismos, tabus e etc. Mas esse dilema feminino entre usar ou não sutiã deixa não apenas as mulheres confusas, mas também os homens. Problemas da pós-modernidade!rsrsrs

    Cris.
    Quanto ao link, pode sim. Quanto à confusão da narração, pode ser pelo fato de eu economizar nos pronomes e dos sujeitos, deixando-os ocultos, isso requer atenção dobrada quanto à conjugação dos verbos rsrsrs

    O legal dos comentários é que cada uma vê vocês destacaram um trecho diferente...

    Obrigadão!

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  10. muito bom, e muitas verdades em poesia ;)

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  11. Que texto maravilhosso! Como jah dizeram vc captou muito bm a alma feminina!

    Muito bom msm!!!!

    Bjks

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  12. o que eu estava procurando, obrigado

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